O ESPERANTO NA VISÃO DE UM FILÓLOGO

J.R.R.TOLKIEN

(Tradução do esperanto para o português: Fernando J.G.Marinho)

Como todo filólogo que se preza, interesso-me pelo movimento lingüístico internacional por tratar-se de um fenômeno lingüístico importante e interessante e, simpatizo principalmente com as pretensões do esperanto. Não sou um esperantista atuante, embora tenha ficado com a impressão , depois de refletir um pouco, que seria desejável que um conselheiro, pelo menos em certo grau , o fosse. Não sei escrever nem falar nessa língua. Conheço-a, como diria um filólogo, pelo fato de há 25 anos (1) havê-la aprendido e não mais esquecido sua gramática e sua estrutura e, além disso, em determinada época, haver lido uma considerável quantidade de textos escritos nesse idioma. Como sou versado nesses assuntos, julgo-me com competência para opinar sobre suas falhas e excelências. Assim sendo, sinto que não posso contribuir de forma útil, a não ser como filólogo e crítico.Mas é exatamente esse o meu ponto de vista sobre a situação do problema de língua internacional: a contribuição de filólogo e de crítico, por mais valiosa que seja em teoria, na prática é indesejável ; e, na realidade chegamos ao ponto em que o filólogo teórico torna-se um obstáculo e um incômodo. Esse é, verdadeiramente, o mais forte dos motivos que tenho para apoiar o esperanto. (2)

Sem dúvida o esperanto ,no seu conjunto, parece-me superior a todos os atuais concorrentes. Mas, na minha opinião, o seu principal argumento para a reinvidicação de apoio está no fato de já ocupar o primeiro lugar, tendo conquistado os maiores índices de aceitação prática e promovido a evolução da organização de grau mais elevado. Ele de fato se parece com uma igreja ortodoxa, que se depara não só com incrédulos, mas com divisionistas e hereges - situação prevista pelos filólogos. Mas, uma vez atingido certo grau de simplicidade, internacionalidade e -acrescentaria- de individualidade e eufonia - que o esperanto indiscutivelmente alcança e ultapassa- parece-me evidente que o mais importante problema que se sobressai e que deve ser solucionado pela língua que pretende tornar-se internacional é a divulgação em âmbito universal. Um instrumento, ainda que imperfeito, que possa alcançar essa meta, vale mais que cem teoricamente perfeitos. Em matéria de criação de línguas e gosto, não existe o definitivo. Criatividade brilhante para detalhes é relativamente irrelevante, desde que já alcançado certo mínimo. Teóricos e inventivos ( a cujo grupo gostaria de pertencer)apenas prejudicam o movimento,quando sacrificam a unanimidade em prol do perfeccionismo.

Na verdade, acho que o aperfeiçoamento técnico da estrutura, para maior simplicidade e clareza, ou para obter um caráter mais internacional , ou o que for, tende a destruir o aspecto "humano" ou estético do idioma criado,-a julgar por exemplos recentes.Esse aspecto, que se supõe de pouca importância prática, parece ter, em grande parte, sido omitido pelos teóricos; mas na minha opinião ele não é assim tão pouco prático: em última análise, influirá muito aquele ponto básico da aceitação universal. O N**(3), por exemplo, é engenhoso e mais fácil que o esperanto, mas, horrível -" produto fabricado", claramente carimbado ou melhor,feito de material sobressalente - faltando-lhe totalmente aquele equilíbrio de ,sem o lampejo de individualidade,a coerência e a beleza ostentados nos grandes idiomas naturais e - dentro dos limites possíveis- , numa língua planificada como o esperanto - prova, aliás , do gênio do seu autor.

Meu conselho a todos que dispõem de tempo ou inclinação a se ocuparem com o movimento por uma língua internacional, seria: "Apoiem lealmente o esperanto".

 

 

--The British Esperantist, 1932

Editor's notes:

(1) This would have made Tolkien 16 years old at the time he studied Esperanto;see also below. It may be wondered just how much his study of Esperanto influenced his interest in constructed languages, which later led directly to The Hobbit and The Lord of the Rings.

(2) Tolkien may be being a bit disingenuous here. There is evidence -- specifically, a notebook, in Esperanto, written at age 17 by Tolkien -- in the Bodleian Library to indicate that his knowledge of, and interest in, Esperanto was, at least during part of his life, considerably greater than he acknowledges in this article. See also his comments in his later essay "A Secret Vice".

(3) "N**" is not further identified, but given the time of writing we may, with some confidence, assume that Tolkien was referring to Otto Jespersen's recently-promulgated Novial.

 

This article has appeared in several places in recent years, including on the net and in the pages of esperanto usa. This posting is copied from pp 11-12 of Tolkien, J.R.R.: La Kunularo de l' Ringo. Translated by William Auld. Ekaterinburg: Sezonoj, 1995.