Prezado Sr. Carlos Heitor Cony

 

Em vista do imenso respeito e admiração que nutro por sua pessoa, fruto de seu brilhantismo cultural sempre a nos brindar com obras repletas de genialidade, não poderia deixar passar em branco um episódio ocorrido e que, infelizmente, foi marcado por um deslize de sua parte.

Quando de seu comentário na Rádio CBN, acerca do questionamento sobre o ensino do espanhol nas escolas brasileiras, sua posição apontou claramente para a adoção de uma "língua única" como solução ao problema da babel lingüística, porém não o Esperanto, por tratar-se de uma "língua biônica".

O "pecado" de sua afirmação, a meu ver, tem duas faces. A primeira diz respeito a adoção de uma "língua única", fato inconcebível frente a diversidade cultural existente no mundo, tão saudável e necessária na criação e perpetuação de novos valores e conhecimentos. Diversidade essa também tão útil e necessária ao próprio sucesso de seu trabalho como escritor e jornalista. E aí eu quero crer que sua narrativa tencionava dizer <<a adoção de uma "língua comum" como um segundo e auxiliar idioma, a ser utilizado na comunicação entre os povos de diferentes culturas>>.

Já a segunda face nos remete ao caráter "biônico" que o senhor impôs ao Esperanto. E a elucidá-lo sobre esse equívoco, antes que fuzilá-lo com argumentos mil contestes, tomarei a liberdade de usar, não a minha opinião, tão desconhecida para a sua pessoa, mas a de alguém que, sei, lhe será bastante familiar.

O trecho que transcrevo a seguir tem origem nas palavras do escritor Umberto Eco quando de sua narrativa acerca de seu livro "A busca da língua perfeita":

"...Estudei um pouco de todas essas utopias a respeito da criação de uma língua perfeita ou da original, a chamada língua de Adão, até aquelas a que chamam de universais, como é o esperanto, o volapük e outras, que não pretendem ser perfeitas, e sim línguas auxiliares.

Nessas ocasiões cheguei a estudar a gramática do esperanto para saber do que se trata. E cheguei a duas conclusões: ele é uma língua muito, muito bem elaborada. Do ponto de vista lingüístico, ele realmente segue critérios de economia (lingüística) e de eficiência admiráveis. Segundo, todos os movimentos em favor de línguas internacionais fracassaram, porém não o do esperanto, que permanece unindo grupos de pessoas em todas as partes do mundo, porque por trás do esperanto existe um idéia, um ideal; pretendo que Zamenhof não apenas construiu um objeto lingüístico, mas por trás disso havia uma idéia (...) idéia de fraternidade, idéia pacifista - foram até perseguidos pelo nazismo e pelo stalinismo - que ainda mantém a comunidade dos esperantistas".

Agora, com a consciência já mais tranqüila por acreditar ter contribuído para a dissolução de um equívoco, me despeço.

Atenciosamente

Oscar Prevides Júnior

Engenheiro Civil

São José dos Campos – SP

oprevides@yahoo.com.br

(02.09.2004)

 

(Veja também, do mesmo autor, outro excelente texto: "Olhos no futuro" (www.kke.org.br/pt/dossie/index.php)