Sempre que posso, quase todos os dias, ouço você, o Artur Xexéo e o Heródoto debatendo temas interessantes de maneira interessante na Rádio CBN.
Sempre fui seu fã de carteirinha e costumo levar a sério suas opiniões.
Aí aconteceu algo incrível...
Hoje às 8:45h. você fez uma afirmação surpreendente e o Xexéo nem estava lá pra eu ouvir uma segunda opinião: você disse que "... A solução é uma língua única, NÃO O ESPERANTO, uma língua biônica, fabricada em laboratório..."
Entrei em pânico! Pensei: e agora? Preciso avisar a UNESCO que reconheceu o Esperanto e recomendou a todos os estados membros que o divulguem e ensinem que o Cony falou que essa língua é biônica!
Preciso avisar 10 milhões de pessoas que falam Esperanto pelo mundo afora que essa língua não vale!
Preciso avisar a China que adotou o Esperanto como matéria opcional nas escolas e acaba de pedir curso dessa língua para os funcionários de sua Embaixada aqui no Brasil, em Brasília que a coisa é biônica!
Preciso avisar o Papa, pra que ele não fale mais Esperanto e não dê nunca mais a mensagem “urbi et orbis” nessa língua! Falando nisso preciso avisá-lo pra tirar do ar os programas de rádio em Esperanto que a rádio do Vaticano transmite semanalmente! E três vezes por semana!
Preciso avisar o Rotary Club que está implantando o Esperanto como língua de trabalho!
Preciso avisar o Parlamento Europeu que está com a mesma idéia em pauta só porque gasta 800 milhões de Euros com tradução.
Preciso avisar a ONU que está levando o Esperanto a sério, só porque gasta o equivalente a 3 vacinas contra a poliomielite por palavra traduzida em suas conferências, já que nenhuma língua nacional faz, de verdade, o papel de língua internacional.
Preciso avisar, também, a ONU pra deixar pra lá essa idéia esdrúxula de proteger as culturas locais da invasão cultural que as está destruindo com a adoção de uma língua neutra! Bobagem!
Preciso avisar meus filhos pra não falarem mais Esperanto pela Internet com jovens de todos os cantos do planeta, como eles fazem quase todo dia, porque seja lá o que for, seja lá o que signifique “ser biônico”, deve ser bem pior do que gastar anos a fio pra aprender uma língua de outro país, falar mal e arcar com o ônus da cultura de invasão com seus enormes interesses econômicos.
Preciso avisar o jovem alemão, de 20 anos, que está no Brasil trabalhando como voluntário em uma ONG esperantista que cuida de crianças abandonadas e que se hospedaria em minha casa em setembro, que agora não vai dar: Esperanto é “biônico” e eu não falo alemão e ele não fala português. E agora?
Antes de você dizer isso Cony, eu hospedei outros jovens estrangeiros em minha casa que só falavam Esperanto, mas agora você me botou um “grilo” na cabeça!
Preciso avisar a Associação Universal de Esperanto que tem delegados no mundo todo e mantém relações oficiais com a UNESCO que o Esperanto é “biônico”, seja lá o que isso signifique! Afinal falo essa língua há 23 anos, vou à Congressos, conto piadas, encontro amigos, troco informações com gente de todo o globo e nunca sofri um curto-circuito sequer!
Preciso avisar a Real Academia de Ciências de San Marino que apóia o Esperanto que tudo é um grande engano!
Preciso avisar a Universidade de São Paulo, que tem grupo de pesquisa científica sobre o assunto e várias Universidades pelo Brasil e pelo mundo que mantém cursos de Esperanto que é tudo um ledo engano.
Um engano que já dura 117 anos!
Um engano que possui imensa literatura original e também traduzida! Um engano que gerou associações internacionais de todo tipo de atividade humana que se utiliza dessa língua para a troca de informações. Aliás, acabo de abrir um catálogo internacional onde figuram essas entidades e vai dar um trabalho danado: é muita gente pra avisar!
Como é que pode tanta gente enrolada em um engano?!
O único engano que havia dado certo depois de centenas de tentativas de solução para a língua internacional que deram com os burros n’água. E deu certo exatamente porque não inventou uma palavra sequer: tudo veio das línguas ditas “naturais”.
Mas eu entendi sua opinião: é que o arranjo da língua teve a interferência do homem...
Quer dizer que tudo que é desenvolvido pela interferência do homem, é biônico... então:
Preciso jogar meu cachorro fora! A natureza só produziu lobos! Cachorro é uma cachorrada biônica! Ou é tudo "bionicão"!
Preciso jogar minha casa fora! O negócio é morar na caverna! É natural!
Preciso me livrar da mobília, das frutas que comprei no mercado, das verduras, das roupas e sapatos, dos aparatos todos.
Meu Deus! Preciso me livrar do rádio! O rádio é um bom exemplo de manipulação de fenômenos físicos naturais pela inteligência humana, então, rádio é biônico!!!
Mas, se me livro do rádio, como é que vou ouvir o Cony?
Então, acho melhor não jogar nada fora; abraçar meu cachorro; não queimar meus livros em Esperanto (tem cada coisa boa... só vendo: até “Os Lusíadas” de Camões); continuar conversando alegremente com meus filhos, esposa e amigos do mundo inteiro nessa língua rica e tão natural quanto o pé de alface que comprei na feira.
E o mais importante, a única opção atual para que o mundo tenha uma democracia lingüística e para que proteja as culturas locais e línguas em extinção.
Vou continuar ouvindo você, o Xexéo e o Heródoto na CBN e falando a Língua Transnacional Esperanto.
Seu admirador,
Pedro Cavalheiro
Professor Universitário
Presidente da Liga Brasileira de Esperanto
(Instituição com 97 anos, reconhecida de utilidade pública desde 1921).
..................................................................................................................................
31.08.2004