ESSÊNCIA E FUTURO DA IDÉIA DE UMA LÍNGUA INTERNACIONAL /

ALGO A SER ACRESCENTADO À CENTENÁRIA TESE DE ZAMENHOF?

(Palestra proferida pelo Prof.José Passini, Doutor em Língüistica pela UFRJ, Ex-Reitor da UFJF,autor do livro "BILINGÜISMO: utopia ou antibabel", por ocasião da solenidade de abertura do 36oCongresso Brasileiro de Esperanto, realizado em Petrópolis-RJ, entre 12 e 16 de julho de 2000.)

 

Este Congresso, um século após Lazarus Ludwig Zamenhof ter publicado a tese "Essência e Futuro da Idéia de uma Língua Internacional", se propõe a examinar o que pode ser acrescentado a ela.

Como início dos estudos, abordaremos alguns pontos do pronunciamento desse homem notável que, mais cedo ou mais tarde, terá seu nome inscrito entre aqueles dos grandes benfeitores da Humanidade. E começaremos, colocando em evidência a constatação que ele fez da incompreensão, da zombaria, e, até mesmo, da hostilidade gratuita dos misoneístas e dos acomodados que, sem se darem ao trabalho de analisar qualquer proposta de mudança, se colocam aprioristicamente contra. Essas criaturas, por não desejarem ou não terem argumentos que os habilitem à discussão do assunto no campo das idéias, valem-se das armas do escárnio e do gracejo inconseqüente.

Entretanto, com a tenacidade e a força características daqueles que vêm ao mundo para trazerem sua contribuição ao progresso, Zamenhof, desde cedo, enfrentou o olhar frio e pretensamente superior dos doutos e dos sábios que se riam da utopia, segundo eles, de uma língua mundial, preconizando-lhe breve desaparecimento.

Hoje, todos nós, que nos concedemos a honra de colaborar na condição de continuadores da obra desse Espírito forte, temos de lembrar-lhe a dignidade, a fortaleza e a humildade com que enfrentou os golpes terríveis daqueles que não souberam compreender o seu idealismo de jovem leigo que, doando as horas de lazer de sua juventude, ousou criar uma língua internacional, na intimidade do seu lar, longe das academias e das universidades.

A força interior que o levava a resistir e a concitar os companheiros à persistência está bem expressa no seu magnífico poema La Vojo (O Caminho), em que ele, que era judeu, se valeu da mesma figura do semeador, empregada por Jesus, na conhecida parábola:

 

Ni semas kaj semas, neniam laciĝas,

Pri'l tempoj estontaj pensante.

Cent semoj perdiĝas, mil semoj perdiĝas,

Ni semas kaj semas konstante.

 

Nós semeamos, semeamos, nunca nos cansamos,

Nos tempos futuros pensando.

Cem sementes se perdem, mil sementes se perdem,

Nós prosseguimos semeando.

 

O poema é todo um hino à persistência. E, embora o Esperanto tenha o vocábulo "persisto" (persistência), Zamenhof usou, nesse poema, mais de uma vez, uma palavra muito mais forte: "obstino" (obstinação). E só mesmo com obstinação seria possível permanecer na luta, com ânimo forte, sem prestar atenção aos ataques, à zombaria, conforme ele concita os companheiros:

 

Obstine antaŭen! La nepoj vin benos.

Obstinadamente avante! Os netos vos abençoarão.

 

Há algo que se possa acrescentar como mudança nesse quadro? A divulgação do Esperanto aumentou, mas não na proporção do desaparecimento do preconceito. Aumentou como decorrência do trabalho ferrenho dos esperantistas, como diz pejorativamente um lingüista.

Ressalvadas honrosas exceções, o meio acadêmico continua a ignorar "conscientemente" a existência do Esperanto, omitindo-se no exame do problema de comunicação mundial, acomodado com a solução paliativa do uso do Inglês e, em menor escala, do Espanhol e do Francês.

Se observarmos o mundo de um século atrás e compararmos os meios de transporte com os da atualidade, podemos considerar proféticas as palavras de Zamenhof, pois àquela época gastava-se mais emdias do que se gasta hoje em horas numa viagem da Europa à América. E quanto aos meios de comunicação? É só nos lembrarmos de que o telégrafo era o meio de comunicação para grandes distâncias e que o telefone apenas começava a ser usado.

A evolução que se deu não tem precedentes na história humana: no transporte: o automóvel, o avião, o trem-bala; nas comunicações: o rádio, o telex, a televisão, o fax e a internet.

Apesar de todo esse avanço nos campos do transporte e da comunicação, o homem continuou tão despreparado para entender-se com o seu semelhante, como se encontrava nos séculos precedentes. É de se perguntar de que nos serve ter, em poucos segundos, um interlocutor no hemisfério oposto, se ele não fala uma língua que nos seja comum. Os meios de transporte e de comunicação se multiplicaram vertiginosamente e estão à disposição do homem, que ainda não consegue se fazer plenamente entendido pelo interlocutor que a tecnologia põe diante dele.

Entretanto, a visão dos grandes espíritos sempre ultrapassou o horizonte da época em que viveram. A respeito dessa necessidade futura, já se pronunciavam Descartes e Leibnitz, no século dezessete. Nessa mesma época, surgiram dois projetos de línguas artificiais, de autoria de George Dalgarno e do Bispo Wilkins. Mas a eclosão da idéia de uma língua internacional se deu em maior volume no século dezenove, quando surgiram várias centenas de projetos. E esses projetos, na sua quase totalidade, não foram elaborados por profissionais da área da linguagem. Foi a própria necessidade social que inspirou muitos leigos a se arriscarem, como amadores, vez que os profissionais da comunicação não se manifestavam...

Deve ser lembrado que no século dezenove, tão pródigo no surgimento de projetos de línguas internacionais, havia um idioma natural, o Francês, que desempenhava o papel que o Inglês desempenha hoje. Nesse contexto, é lícito seja perguntado por que, apesar de o problema parecer estar resolvido, surgiram tantos projetos de línguas artificialmente construídas. É exatamente porque ficavam evidenciados dois problemas no uso de uma língua natural como interlíngua: a dificuldade de aprendizado e a falta de neutralidade política.

Entretanto, poder-se-ia perguntar por que - se a necessidaade de uma língua internacional aumentou tanto - por que não apareceram, no século vinte, tantos projetos de interlínguas como no século precedente. Será que lingüistas eminentes, do mundo inteiro, se debruçaram sobre o assunto e concluíram que o Inglês ou qualquer outra língua resolve, a contento, o problema de comunicação internacional e que a sua adoção não invade a intimidade cultural de nações menores, não fere nenhum princípio de igualdade de direitos entre os povos?

Não, de modo algum! Os lingüistas, salvo raríssimas exceções, conformam-se com o statu quo, sem haverem estudado nem superficialmente o assunto. Antoine Meillet, Otto Jerpersen e André Martinet se incluem na curtíssima lista de exceções. Martinet chegou a trabalhar nesse campo. Fez parte de um grupo que, durante mais de vinte anos trabalhou na elaboração de vários projetos de língua internacional, um dos quais foi dado a público, em 1950, com o nome de Interlíngua, mas que não conseguiu tornar-se efetivamente uma língua. Mais tarde, Martinet orientou uma tese de doutoramento sobre o Esperanto, na França. Em entrevista concedida há poucos anos, manifestou-se plenamente convencido da viabilidade do Esperanto, tendo finalizado seu pronunciamento, citando Meillet: "Toda discussão teórica é vã; o Esperanto funciona." Jespersen notável lingüista dinamarquês, estudou o assunto com seriedade e elaborou um projeto de língua internacional, a que deu o nome de Novial, publicado em 1928 e reformado em 1934, mas que não sobreviveu ao autor, que morreu em 1943.

Feita essa ressalva justa, voltamos a perguntar: Por que diminuiu gradualmente, no século vinte, o aparecimento de novos projetos, se a necessidade de uma língua internacional se tornava, a cada dia, mais evidente? Não seria porque os adeptos da idéia de adoção de uma língua planejada estariam convencidos de que a solução para o problema já havia aparecido? Será que não teriam chegado a essa conclusão pelo fato de que nenhum, dos poucos projetos surgidos nesse século, conseguiu abalar o sucesso sempre crescente alcançado pelo Esperanto?

Zamenhof, na tese que nos propomos a examinar neste Congresso, ainda defende a adoção do Esperanto contrapondo-o a outros projetos de línguas artificiais, apresentando argumentos de ordem técnica. Hoje, a discussão em torno do tema tomou outro rumo. Não se trata mais de comparar o Esperanto com outras línguas artificiais ou planejadas, a não ser para fins de estudo. Visto sob a ótica do desempenho, o Esperanto já saiu dessa categoria. Já se tornou uma língua viva, que funciona exatamente como as línguas naturais.

Pela genialidade da sua concepção, o Esperanto passou, imperceptivelmente, da condição de projeto à de língua viva; saiu do campo abstrato do puro ideal e passou para o terreno concreto da comunicação plena. Nesse particular, deve ser reconhecida a visão sócio-lingüística de Zamenhof, que sabia que o seu projeto só se tornaria verdadeiramente uma língua quando um grupo humano o adotasse e o usasse efetivamente, dando-lhe o sopro de vida. Sabia, e disse-o claramente, que a partir daí, ninguém mais exerceria controle direto sobre ela. A evidência do que foi dito está na sua afirmativa: "A causa do Esperanto não depende de nenhuma pessoa ou sociedade; (...) o próprio autor do Esperanto não tem mais influência absolutamente nenhuma sobre a língua; porque o Esperanto há muito se tornou uma coisa puramente pública."

Atualmente, o eixo da discussão desviou-se, como dissemos. Já não se discute mais a adoção do Esperanto, confrontando-o com outras línguas artificiais. O Esperanto tornou-se uma língua viva. Conquistou o seu lugar na longa lista de línguas do mundo. E, diga-se de passagem, essa conquista não se deveu a ação alguma de qualquer poder político, econômico ou mesmo religioso. Ascendeu à condição de língua viva pelos seus valores intrínsecos, pela sua capacidade de, sem as complicações próprias das línguas naturais, dar plena conta do discurso humano.

Aos que crêem ter o Inglês se fixado definitivamente como idioma internacional, deveria ser lembrado que a própria União Européia não o adotou oficialmente, nem mesmo juntamente com o Francês, reagindo a várias propostas já feitas, no sentido de considerá-los idiomas de trabalho. Aos que crêem que a situação do Inglês é permanente, deveria ser lembrado, também, que o mesmo se dizia do Latim na Idade Média. Quem ousaria dizer que um dia essa língua - em que eram ministradas aulas nas universidades européias - cederia lugar ao Francês? E, quando o Francês ocupou-lhe parte do espaço, quem diria que este, um dia, cederia o lugar ao Inglês?

Por que houve essa sucessão de língua internacionais? O Latim cedeu terreno ao Francês por várias razões, entre as quais a força do surgimento do sentimento nacionalista, que passou a valorizar a língua local como elemento de identificação nacional, fenômeno que quase toda a Europa vivenciou. Na França, o Cardeal Richelieu, que foi mais político que clérigo, habilmente formou um academia em 1635, como parte de seus planos para a unificação da França. Unificado o país, tornou-se uma potência política e um centro cultural, e a sua língua passou a ser veículo de sua cultura. Nessa condição, o Francês passou a desempenhar o papel do Latim, vez que o mundo não pode prescindir de uma língua internacional.

Mas, poder-se-ia perguntar por que o Latim não continuou como língua internacional. O seu declínio deveu-se também ao fato de a sua estrutura não lhe permitir acompanhar a dinâmica da vida. Seu uso ficara confinado a determinadas faixas mais cultas do povo. Tornara-se um código fixo, a expressar um tipo de cultura veiculada muito mais na escrita do que na fala. Essa, mais uma razão de ter sido substituído pelo Francês, que dominava uma faixa mais ampla na comunicação humana.

Mais tarde, a substituição do Francês pelo Inglês deveu-se ao crescimento do poder econômico e político dos Estados Unidos da América que, ao lado da Inglaterra, passaram a empenhar esforços na difusão de sua língua, conscientes dos dividendos que obteriam como retorno aos investimentos feitos. Hoje, temos ainda o Francês com alguma expressão no cenário mundial, onde divide espaço com o Espanhol.

E a supremacia do Inglês é permanente? Não, não o é. A História prova-o Em verdade, nenhuma língua ainda ocupou plenamente o lugar do Latim. Lembremo-nos de que o Latim tinha a qualidade primeira para ser uma língua verdadeiramente internacional: a neutralidade política. Quando desempenhou o papel de língua internacional, o Latim não mais estava vinculado a nenhum poder econômico ou político, pois o Império Romano, que o difundira por toda a Europa, há séculos deixara de existir, e ele não se tornara a língua nacional de nenhum outro povo. E foi exatamente por isso que se manteve nesse papel durante tantos séculos. O seu uso não feria nenhum sentimento nacionalista, não invadia o terreno sagrado da identidade nacional de povo algum. Era neutro. Só deixou de ser usado porque não tinha mecanismos acessíveis de atualização, a fim de acompanhar o progresso, que se fazia crescente.

Hoje, voltamos a dizer, o Esperanto não mais disputa lugar entre as línguas artificiais. Tornou-se uma língua natural. Percorreu um caminho inverso ao do Latim. Este, com o passar do tempo, tornou-se praticamente uma língua artificial, estratificou-se por lhe faltarem mecanismos que lhe permitissem acompanhar a dinâmica da vida. Parou no tempo. O Esperanto, ao contrário, graças à sua estrutura, tornou-se, com o uso, uma língua natural, uma língua viva.

E agora, uma reflexão para aqueles que lamentam não ter sido o Esperanto aprovado na célebre convenção de Paris, no ano de 1907: Estaria ele suficientemente maduro sob o aspecto lingüístico? Hoje, ninguém mais, em sã consciência, pode negar-lhe a condição de dar conta integral do discurso humano. Congressos como este constituem provas do que dizemos. Devemos esclarecer que esta solenidade de abertura está sendo levada a efeito em Português pelo fato de termos aqui convidados que não merecem ser molestados com um cansativo serviço de tradução.

Além dos congressos nacionais, como este, realizam-se anualmente, congressos mundiais, que reúnem entre três a quatro mil participantes. No congresso de Varsóvia, que comemorou o Jubileu do Esperanto, em 1987, o total quase atingiu seis mil. Esses congressos mundiais constituem prova concreta da funcionalidade e da atualização do Esperanto. Ao contrário deste - que é nacional - nos congressos mundiais também a solenidade de abertura se realiza em Esperanto. E não poderia ser de outra forma, vez que nessas ocasiões a platéia é constituída de pessoas oriundas de sessenta a oitenta países diferentes.

Embora existam muitas universidades que ensinam o Esperanto no mundo, o tema "comunicação internacional" ainda não chega a despertar o interesse dos lingüistas para o aproveitamento desses extraordinários campos de pesquisa que são os congressos internacionais de Esperanto. O funcionamento pleno de uma língua artificialmente elaborada constitui fato único na história da Humanidade e contraria frontalmente muitas declarações destituídas de base, infelizmente registradas em livros de lingüística e inconscientemente repetidas em cursos universitários. Infelizmente, tem sido uma luta difícil, penosa mesmo, como a sentiu Zamenhof, a implantação do Esperanto. Entretanto, apesar dos percalços, a sua difusão aumenta.

Acontecimentos como esses congressos, a existência de muitas sociedades e organizações de âmbito mundial que usam o Esperanto, ao lado da imensa bibliografia original e traduzida, da grande quantidade de periódicos e de programas radiofônicos provam, de modo incontestável, que a sua simplicidade e facilidade de uso não significam empobrecimento na sua capacidade de expressão, como ocorre nos "pidgins". O Esperanto é uma demonstração viva de que complexidade lingüística não significa superioridade de desempenho, pois é simples, sem ser superficial; é eficiente sem ser complexo.

Na atualidade, busca seu espaço entre as línguas nacionais, que ocupam indevidamente o lugar de internacionais. Sobre essas, apresenta, se observada sob o aspecto puramente lingüístico, as vantagens que lhe conhecemos, de facilidade de escrita, de pronúncia, de formação de palavras, de incorporação de novos vocábulos, tudo dentro de um padrão de regularidade absoluta, de que nenhuma língua natural nem de leve se aproxima.

Se observada sob o aspecto de neutralidade, apresenta vantagens não encontráveis em nenhuma língua étnica, pois não sofre influência de nenhuma cultura particular de um povo, nem de qualquer forma de poder religioso, econômico ou político. Apresenta-se o Esperanto como expressão máxima de justiça no campo da comunicação. Confere a todos os habitantes do Planeta o acesso à comunicação, em igualdade de condições, tanto aos filhos de países ricos, quanto àqueles das nações menos dotadas de poderio econômico. Ninguém é compelido a imitar os hábitos lingüísticos de falantes nativos, vez que o Esperanto não tem país de origem, cuja cultura poderia marcá-lo.

Hoje, estamos assistindo ao surgimento de duas tendências mundiais, ambas altamente favoráveis à adoção do Esperanto como interlíngua. Testemunhamos uma crescente conscientização dos valores nacionais, a se expressarem no folclore, na música, nos costumes, nas artes nacionais. Há um anseio manifesto de demonstrar a sua identidade nacional, principalmente da parte de etnias menores. E no centro desses fatores aglutinantes de um povo encontra-se a língua, a língua como fator determinante para a manutenção de uma unidade nacional.

Paralelamente a essa conscientização dos valores nacionais, estamos, desde há algum tempo, assistindo ao nascimento de uma consciência planetária. Hoje, povos que ainda não aprenderam a repartir suas riquezas, já repartem e compartilham pelo menos os seus problemas. A necessidade da preservação das condições de habitabilidade do Planeta está abrindo mais diálogos do que têm conseguido as religiões... Nasce no ser humano a idéia de pertencimento a uma comunidade que transcende os limites estreitos de sua nação. O Homem já vislumbra um mundo onde o empenho da inteligência seja também voltado ao estabelecimento e cultivo de um clima de paz. O surgimento de uma consciência planetária é mais que desejável, é imprescindível para a própria sobrevivência da Humanidade. E essa tão auspiciosa consciência planetária não deve surgir como oposição ao nacionalismo legítimo, cultivado por todos os povos, mas como uma dimensão maior, um avanço no pensamento humano.

Essa consciência de pertencimento a uma comunidade que se sobreponha aos estreitos limites nacionais representa uma nova dimensão na própria história da raça humana. Mas ela não poderá aparecer plenamente através de doutrinações políticas apenas. Só um contato maior entre seres humanos é que ensejará o surgimento dessa tão desejável consciência supranacional. Sociedades, agremiações, organizações de âmbito mundial têm surgido num volume crescente. É um novo degrau na história da evolução humana. A consciência de ser social do Homem, que começou com o desenvolvimento da consciência tribal, agora se dilata, ultrapassando os limites nacionais.

Nesse particular, deve ser ressaltado o notável trabalho desenvolvido na União Européia, onde quinze países convivem, buscando soluções pacíficas para os seus problemas comuns. É de se lamentar, entretanto, que justamente nessa área, tão promissora - talvez o maior tentame de convivência pacífica na história da Humanidade - seja onde se perdem os mais nobres esforços de convivência inteligente e verdadeiramente humana, pelas fortes barreiras lingüísticas que se lhe antepõem.

Barreiras lingüísticas sim, porque - pela falta de uma língua comum, livremente aceita por todos - recorre-se ao serviço de tradução, e o tradutor não consegue reproduzir a vivacidade, a eloqüência, o sentimento do orador. Sem chegarmos à dureza do aforismo italiano: "traduttore, traditore", reconhecemos que a figura intermediária do intéprete minimiza - quando não apaga de todo - muitas nuanças importantes de um discurso. Parece até ironia o fato de já existir uma moeda comum, não-nacional, livremente aceita e não existir ainda consenso quanto à adoção de uma língua tão neutra quanto a moeda.

Mas, deve ser lembrado que para que essa postura auspiciosa do ser humano diante do mundo se acelere e se torne uma realidade, é necessário que se aproveite o efeito unificador, aglutinador de uma língua comum, como existe na intimidade das nações. Entretanto, o uso dessa língua não poderá pôr em perigo os valores nacionais, pela tentativa de uniformizar o mundo, ao gosto dos poderosos que tentam impor suas culturas através dos seus idiomas. Esse assunto foi amplamente discutido no Congresso Mundial de Esperanto, em Berlim, em 1999, quando ficou bem claro que todos desejamos uma unificação mundial, mas que não seja ao preço de uma uniformização capaz de apagar as culturas menores.

O idioma internacional, unificador dos povos, deve ser absolutamente neutro e livremente adotado. Deve ser um idioma que não seja portador de uma cultura concorrente, porque nacional; mas enriquecedora, porque mundial. Uma língua internacional neutra, não-vinculada a interesses econômicos ou políticos, logo não-pertencente de modo particular a povo algum, aprendida como segunda língua por todos os povos, é a solução justa e fácil do problema, pois ao achar-se alguém em presença de um interlocutor, falante de um idioma desconhecido, apelará imediatamente para o denominador comum, a segunda língua.

E é exatamente por pensarmos e sentirmos assim é que aqui estamos nós, algumas centenas de idealistas, que acreditamos que o mundo descobrirá o Esperanto no futuro, nesse futuro em já nos encontramos, pois já o usamos como meio de comunicação, usufruimos uma literatura mundial, convivemos através de correspondência ou de contatos pessoais com pessoas de mais de cem países, desenvolvendo, assim, essa desejável consciência planetária, sem abrirmos mão dos nossos valores e da nossa cidadania nacional.

E relativamente à tese do Doutor Zamenhof, tema deste Congresso: "Essência e Futuro da Idéia de uma Língua Internacional", podemos dizer que assimilamos plenamente a essência da idéia de uma língua internacional, assimilamo-la a tal ponto que, para nós, o futuro já chegou!

Mantemos o Esperanto vivo para quando o mundo se conscientizar da necessidade que tem de uma língua neutra para a comunicação mundial; para quando o comodismo de alguns homens deixar de mascarar a sua subserviência lingüística; para quando as forças políticas e econômicas deixarem de agir egoisticamente, impondo seus idiomas.

Quando mais esse capítulo do código dos direitos do homem for respeitado e a justiça no relacionamento humano sair do papel e passar a atuar diretamente na vida, propiciando ao homem comum o contato com o seu semelhante através de uma língua neutra como o Esperanto, poderemos efetivamente falar em respeito ao direito dos usuários de línguas minoritárias.

E é a força do ideal de propiciar ao ser humano um instrumento de comunicação mundial que não fira a sua soberania nacional que nos leva a oferecer esse código de comunicação humana, saído do cérebro e do coração daquele jovem que pôde, com a visão dos iluminados, vislumbrar, através do tempo, a necessidade do instrumento de comunicação que criava e que passaria a pertencer coletivamente a toda a Humanidade, sem pertencer particularmente a ninguém.

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