(Palestra proferida pelo Dr. Paulo Sérgio Viana, de Lorena-SP, em 1984, na antiga sede da Liga Brasileira de Esperanto, no Rio de Janeiro-RJ. Texto extraído do Brazila Esperantisto, n°285, Aprilo-Junio 1985)
"O pensar recolhe a linguagem para junto do simples dizer. A linguagem é assim a linguagem do ser, como as nuvens são as nuvens do céu. Com seu dizer, o pensar abre sulcos invisíveis na linguagem. Eles são mais invisíveis que os sulcos que o camponês, a passo lento, traça pelo campo."
Começava dezembro, quando recebi o telefonema do presidente da Liga Brasileira de Esperanto, convidando-me a participar do aniversário de Zamenhof, no Rio. Simples esperantista do interior, senti-me feliz e comentei o fato com um amigo, pessoa responsável, consciente do papel do homem na comunidade e engajada em movimentos de reforma social. Não encontrei eco favorável: ao contrário, recebi ducha gelada em forma de indagações ásperas:
- Abalar-se até o Rio para celebrar o "dia de Zamenhof?" Não será isto uma espécie de idolatria inconseqüente, a deformar o verdadeiro sentido de uma língua, em troca de sentimentalismo barato? Não estarão os esperantistas criando uma nova mística, uma nova religião a desviar a humanidade dos seus verdadeiros rumos de progresso e construção social pragmática? Não estarão transformando a Língua Internacional em verdadeira alienação dos prementes conflitos e barreiras que impedem o progresso do ser humano? Haverá tempo para comemorar Zamenhof, quando temos a ameaça diária da pobreza, da violência, da injustiça social, do desemprego?...
As perguntas de meu amigo tiveram pelo menos uma conseqüência positiva: a decisão que tomei de discutir, no Rio, com os "samideanoj", na festa simples de 15 de dezembro, as melhores respostas que a comunidade esperantista pode oferecer a tais indagações, talvez mais fáceis de encontrar que nossos ouvidos gostem...
Lembrei-me inicialmente da "Alegoria da Caverna", do livro sétimo da célebre "República", de Platão. A lição universal e perene que nos deixa o grande filósofo é clara: a população, habituada às sombras e aos ecos de uma caverna, dificilmente se deixa convencer das luminosas realidades do mundo exterior, que algum esforçado conquistador lhe venha revelar. Tal revelação traz a dúvida e até a revolta contra o revelador, diante das dificuldades inerentes à conquista do progresso. Devemos considerar Zamenhof como um dos grandes reveladores de novas verdades, num mundo mal preparado para recebê-las. É natural que desconfiem dele e de sua grandeza. O que Zamenhof propôs exige certo esforço conjunto e racional, para superar de vez um entrave milenar à evolução humana: a diversidade lingüística. No entanto, todas as grandes personalidades que a História já conheceu, por seu caráter criativo, encontraram enormes obstáculos à sua obra. Mesmo assim, podemos afirmar que o planeta Terra não seria hoje o mesmo , não tivessem vivido Sócrates, da Vinci, Lavoisier, Galileu, Bach, Einstein, Curie, Edison, Freud, Gandhi e muitos outros. Nosso mundo é hoje o que os homens como eles fizeram. Será errado cultivar sua memória? Será ilusão tentar seguir-lhe os passos, em busca de um futuro melhor? Será melhor cultivar os "ídolos" em moda, na imprensa e na TV?
A própria biografia de Zamenhof e sua língua nos transmitem muito da preocupação social do nosso "mestre". Teve ele por berço a desigualdade de raças e de poder, a intolerância preconceituosa, a pobreza material e espiritual à sua volta. Cresceu lidando com o obscurantismo que até no próprio pai presenciou, no gesto inquisitorial da queima de seus primeiros manuscritos. Não escolheu a lingüística por profissão, mas abraçou a medicina em seu sentido mais humano, voltado com sensibilidade para a dor e a carência do semelhante. Preocupou-se em criar uma língua que servisse aos homens simples, acessível a todos. Rica o bastante para servir aos grandes arroubos da oratória e às sutilezas da poesia, mas também, e sobretudo, ao uso diário dos homens comuns, no contato vivo com seu semelhante, além das fronteiras. Teve , sim, a preocupação de enxertar em seu idioma uma alma de idealismo, comprometida com a Paz, a Solidariedade, a Amizade entre todos os povos. Dotou-a de certo humanismo singular que denominou a "idéia interna" do Esperanto. Para aqueles que duvidem do valor prático, no mundo moderno, das noções de humanismo genuíno, recomendamos a leitura do artigo "Curando com o Fundamental", na conceituada revista médica americana "New England Journal of Medicine", de agosto de 1984. Diante da tecnologia médica atual e da avalancha de novos conhecimentos científicos, em nossos dias, o autor sabiamente relembra as três armas fundamentais à disposição do médico em sua intenção de curar: a "palavra" humana, a infundir confiança e esperança; o "toque" direto da mão do médico , a infundir ânimo; a "humanidade" do médico, significando a sua empatia com o sofrimento do paciente.
Não serão elementos semelhantes os de que todos necessitamos, para que as relações humanas se tornem mais construtivas? E não é este mesmo humanismo que Zamenhof embutiu em sua obra?
O Esperanto e o Esperantismo têm sim, um fundamento humanista, sem o qual ficariam deformados, aleijados. A preocupação de Zamenhof com seu semelhante, o homem, ficou imortalizada em seus discursos: "Em nosso congresso não existem nações fortes e fracas, privilegiadas ou não, ninguém se humilha, ninguém se constrange;..."
O movimento esperantista nasceu e cresceu dentro da neutralidade ativa que deixa lugar a todas as correntes de pensamento que visem o progresso e a convivência pacífica entre os homens. Nunca se alienou dos problemas diários, no mundo, nunca ignorou as realidades difíceis da sociedade. Assim sendo, entre esperantistas, sempre vicejaram movimentos pelos direitos das minorias, pelo respeito à mulher, aos deficientes físicos, aos idosos, à criança, às minorias lingüísticas, religiosas , culturais; pela assistência aos cegos, na África; pelo incentivo à publicação científica, no terceiro mundo; pelo direito à livre troca de informações, nos veículos internacionais; pela integração Ocidente-Oriente; pela paz; pela preservação do meio ambiente; pela igualdade no direito internacional; pela preservação da autenticidade de todas as culturas, mesmo as menores, contra a invasão de culturas estrangeiras. Prova disso são as perseguições que alguns regimes totalitários lhe têm dedicado, no decorrer deste século...
Diante dos modismos dos nossos dias, em que a intromissão de línguas estranhas é recebida com passividade e ingenuidade, o esperantista reafirma a sua crença na Palavra criadora, no Gesto fraterno, no Humanismo verdadeiro.
Por isso, e apesar das perguntas contundentes do meu amigo, podemos assegurar com convicção que continuamos esperantistas: porque consideramos os homens nossos iguais e desejamos ter com eles um contato direto e amigo; porque acreditamos na linguagem como elemento fundamental para a sobrevivência e a evolução do nosso mundo; porque recusamos o achatamento cultural que nos tenta massificar e anular a nossa própria individualidade; porque cremos na paz e no bem-estar social, como utopias que toda a mente sadia busca, mesmo sabendo-as distantes; porque desejamos ampliar a estreita janela pela qual enxergamos o mundo; porque sabemos que a miséria e a injustiça reinantes neste planeta são, em grande parte, pontos de compulsão de domínio de homens sobre homens, contra o que desejamos lutar com as armas do amor e da fraternidade ; e porque não custa, afinal, de vez em quando, elevar os nossos olhos para o horizonte distante e as nuvens do céu, sem retirar os pés do chão firme, para avaliar melhor o rumo que devemos seguir.