A ORIGEM DO ESPERANTO(*)

 

1. Trataremos do tema "Origem do Esperanto", enfocando os seguintes aspectos:

 

1.1.Fatores sociais: o ambiente em Bielostok;

1.2.Fatores psicológicos: a personalidade de Zamenhof;

1.3.Histórico do processo de criação;

1.4.Fontes do Esperanto; critérios usados por Zamenhof;

1.5.O caráter lingüístico do Esperanto.

 

2. O ambiente em Bielostok

 

Na segunda metade do século dezenove, a cidade natal de Zamenhof, hoje polonesa, era parte do Império Russo;sua população era formada predominantemente por judeus(66%), e por poloneses(18%),russos(8%), alemães(6%) e ucranianos(2%). O russo era imposto como língua oficial. Esses grupos de etnias e línguas diferentes tratavam-se como inimigos. Perseguições emassacres(pógroms) eram freqüentes e atingiam principalmente os judeus.

Na casa de Zamenhof falava-se russo; a mãe, às vezes, usava o iídiche.

 

3. A personalidade de Zamenhof

 

O jovem Lázaro Luis era filho e neto de professores de línguas.Seu pai, Marcos, era também censor do tzar.Extremamente sensível, Zamenhof chocava-se com o contraste entre os nobres ideais que lhe ensinavam e a dura realidade das ruas de Bielostok.

O pendor de Zamenhof para o estudo de línguas era extraordinário, ao ponto de ele declarar:"a linguagem humana sempre foi, para mim, a coisa mais importante do mundo".E também: "eu sempre senti que a língua era o mais santo patrimônio do homem".Ele amava principalmente a língua russa; sonhava tornar-se um grande poeta nesse idioma e, já aos 10 anos, escreveu nessa língua uma tragédia em 5 atos sobre o tema da Torre de Babel..Zamenhof falava fluentemente três línguas: o russo, o polonês e o alemão;lia bem o francês,mas o falava mal. Além disso, conhecia teòricamente, mais 8 idiomas,entre esses o latim, o grego e o hebraico.No ginásio, sempre foi o primeiro aluno em línguas.

 

4. Histórico do processo de criação do Esperanto

 

A situação de judeu do gueto, numa cidade habitada por grupos que se odiavam por falar idiomas diferentes, foi decisiva para provocar em Zamenhof o desejo de promover a confraternização dos povos, através de uma língua comum.Ainda criança, pensou inicialmente em usar para isso uma das línguas clássicas, latim ou grego. Mas logo percebeu que a excessiva complexidade desses idiomas inviabilizava a idéia. Também muito difíceis, as línguas nacionais modernas logo se mostraram inadequadas, e Zamenhof convenceu-se de que a língua-ponte entre os povos deveria ser uma nova língua, neutra, supranacional.Ao estudar inglês, no quinto ano do ginásio, viu que a gramática de uma língua pode ser muito simplificada; mas continuou preocupado com o que chamava de "gigantescos dicionários" das línguas nacionais. Permanentemente ligado nesse assunto,conta que , certa vez, quando cursava a sexta série do ginásio,ao andar pelas ruas de Varsóvia,para onde se mudara, atentou para duas palavras russas que apareciam em placas de certas casas: shvéjcarskaja (portaria) e kondítjerskaja (confeitaria), em que o sufixo "skaja" indica "lugar" e ,daí ,intuiu todo o sistema de afixos que lhe permitiu drástica redução dos "enormes dicionários" que o atormentavam. Trabalhando com afinco, desde o quinto até o oitavo ano do ginásio, Zamenhof, aos 19 anos, em 17 de dezembro de 1878, reuniu-se em sua casa, com colegas ginasianos, para festejar e cantar o hino de batismo da primeira versão do Esperanto, então chamada Lingwe Universala.

Antes da publicação da língua em sua versão final,em 1887, houve pelo menos mais uma variante intermediária, de 1881, denominada Lingvo Universala. Zamenhof só publicou o Esperanto após muitos anos de aperfeiçoamento e de testes que comprovaram ser a nova língua adequada ao uso literário, com estilo e espírito próprios .

5. Fontes do Esperanto; critérios usados por Zamenhof

 

5.1.-O vocabulário é formado por raízes das línguas indo-européias. No "Universala Vortaro", uma das partes do "Fundamento",a proporção é de 84% de raízes latinas, 14% germânicas, 1,5% eslavas e 0,5% gregas. Aproveitou também raízes não indo-européias, quando se tratava de termos indiscutivelmente internacionais, como:jubile', sabat',^herub(do hebraico); alkohol', almanak',bazar', sirop'( do árabe); te' (do chinês); tabak'(de língua indígena americana);

5.2.-Também da fonte indo-européia foram tomados os afixos: aliás, como veremos adiante, os afixos do Esperanto , e as próprias terminações gramaticais, na verdade são palavras independentes, com propriedades análogas às das raízes.Para não estender em demasia este resumo, eis apenas alguns exemplos: AR:slovar(russo=dicionário); vocabulário (português); EJ:Abtei,Auskunftei (alemão=abadia, posto de informações);DIS:disseminar(português); terminação J, do plural: do grego (bibloi= livros); terminação E dos advérbios: do latim (bene, mane, saepe; e também do alemão: nahe, lange).

5.3.-A escolha foi feita levando em conta o grau de internacionalidade da palavra, mas também a sua clareza, tamanho,adaptação às regras da gramática; a ausência de homônimos, a facilidade de formação de novos vocábulos; a importância cultural do idioma de origem. Ainda ssim, Zamenhof foi obrigado a alterar a forma original de muitas raízes, para evitar homônimos ou melhorar a harmonia do idioma. Também aqui vamos limitar os exemplos:planedo (evita a terminação ET, do diminutivo); jaro(evita AN, mais internacional, pórque já é sufixo); krepusko (evita UL, também sufixo);ta^cmento(do francês détachement, sem o DE, para evitar interferência com a preposição);

5.4.-No vocabulário do Esperanto nada é inventado: apenas adaptado dos idiomas ditos naturais.A tabela dos correlativos, à primeira vista artificial, em verdade generaliza e aperfeiçoa um sistema encontrado em muitos idiomas,como o inglês(that, there,then/ what, where,when), e o russo(kakoj, takoj, nikakoj/ po^cemu, potomu/ kogdá, togdá, inogdá), correspondentes às séries: tiu, tie, tiam; kio, kie,kiam e, respectivamente, kia, tia, nenia, tial, kiam, tiam , iam - do Esperanto;

5.5.-O sistema verbal do Esperanto que,segundo Geraldo Mattos, " é um inimaginável milagre de simplicidade e elegância que só uma intuição sobre-humana pode explicar" -parece ter alguma analogia com formas existentes no letão e no hebraico;

5.6. -Mas a decisão mais genial de Zamenhof, ao elaborar o Esperanto, talvez tenha sido a de adotar o sistema dos chamados "códigos secretos", que ele explica no prefácio do "Unua Libro"(reproduzido na "Fundamenta Krestomatio"):fiz a decomposição completa das idéias em palavras independentes, de sorte que a língua toda,em vez de palavras em diversas formas gramaticais,consiste apenas de palavras de forma invariável. Quem examinar uma obra escrita em minha língua verá que QUALQUER PALAVRA ALI SE ENCONTRA SEMPRE NUMA FORMA ÚNICA, ISTO É, NA FORMA QUE CONSTA NO DICIONÁRIO. E AS DIVERSAS FORMAS GRAMATICAIS, AS RELAÇÕES RECÍPROCAS ENTRE AS PALAVRAS, ETC, SÃO EXPRESSAS PELA JUNÇÃO DESSAS PALAVRAS INVARIÁVEIS." . E aqui o mestre confessa um pequeno artifício: "mas, como esse tipo de língua é inteiramente estranho aos povos europeus, e seria difícil se acostumarem a ele, eu adaptei o referido desmembramento ao espírito das línguas da Europa. Assim, quem aprender minha língua por um manual, sem ler o prefácio, jamais pensará que a estrutura dessa língua tenha alguma diferença em relação ao seu idioma nacional.Tomemos, por exemplo,a palavra FRATINO: na verdade, ela é composta de três palavras: frat(frato), in(virino) e o(aquilo que é, que existe); mas o manual a explica assim: Frato=frat; mas, como qualquer substantivo,em nominativo, termina em O,escrevemos Frato; para a formação do feminino, acrescenta-se IN; logo, Fratino..... Dessa forma, o desmembramento da língua em nada atrapalha o aluno que, nem de longe, suspeita ser aquilo a que denomina terminação, prefixo ou sufixo, uma palavra totalmente independente, que mantém seu significado, quer seja usada no princípio ou no fim da palavra, ou como vocábulo autônomo.; e que QUALQUER PALAVRA PODE PERFEITAMENTE SER USADA COMO RAIZ OU COMO PARTÍCULA GRAMATICAL".

E Zamenhof arremata explicando o motivo de sua decisão: "CONTUDO, O RESULTADO DESSE TIPO DE CONSTRUÇÃO DA LÍNGUA É QUE TUDO O QUE SE ESCREVA NA LÍNGUA INTERNACIONAL SERÁ IMEDIATA E PERFEITAMENTE COMPREENDIDO ( COM OU SEM CHAVE), MESMO POR QUEM NÃO TENHA APRENDIDO A GRAMÁTICA DA LÍNGUA, OU MESMO NUNCA TENHA OUVIDO FALAR DELA". E, para provar o que disse, o mestre exemplifica com o caso de um russo que, sem saber Esperanto, precisa traduzir a mensagem: " Mi ne scias, kie mi lasis mian bastonon. ^Cu vi ^gin ne vidis?

Segundo Waringhien, até hoje não foram inteiramente compreendidas e aproveitadas as conseqüências dessa estrutura não-européia do Esperanto.E lembra que o uso dos afixos como palavras independentes foi muito lento: EJO, por exemplo, só apareceu pela primeira vez no Psalmaro, em 1908. Quem quiser entender melhor a relação entre a estrutura do Esperanto e os códigos numéricos secretos, veja o exemplo que dá Waringhien em "Lingvo kaj vivo", pg 105.

O motivo dessa decisão de Zamenhof foi permitir o uso do Esperanto ANTES MESMO DE ELE SER APRENDIDO

5.7.-A gramática básica do Esperanto foi extremamente simplificada, reduzindo-se às chamadas "16 regras" fundamentais.

 

6. O caráter lingúistico do Esperanto.

6.1.- Em um de seus trabalhos, Claude Piron demonstra que, quanto à estrutura gramatical, o Esperanto é uma língua do tipo isolante (como o chinês e o vietnamita), porque todos os seus morfemas (tanto os gramaticais, quanto os semantemas) são invariáveis - como Zamenhof já explicara no Unua Libro.-.Mas o fato de ser possível analisar com tanta clareza as partes constituintes de um vocábulo é também uma propriedade das línguas chamadas aglutinantes(como o turco, o húngaro,o finlandês). Talvez por isso, muitos especialistas (entre eles Waringhien) dizem que o Esperanto é aglutinante. Mas -adverte Piron- nas línguas aglutinantes os afixos jamais são usados de forma independente, como em Esperanto: eles estão sempre unidos a outras raízes.Quanto ao vocabulário, -sabemos todos -o Esperanto é indo-europeu, e tem mesmo algumas séries de palavras que permitiriam seu enquadramento no tipo flexivo (como o latim, o grego, o português): redaktoro, redakcio etc.Também a concordância entre o adjetivo e o substantivo é própria das línguas flexivas.

Finalmente,-argumenta Piron, listando vários exemplos que aqui não teremos tempo de examinar-, quanto à sintaxe, à construção das frases, o Esperanto é claramente uma língua eslava(como o russo, e o polonês). Creio que essa dificuldade de classificação do Esperanto, a dúvida quanto a se é desse ou daquele tipo, é apenas mais uma prova do seu caráter internacional. Mesmo alguns pontos tidos como imperfeições, porque constituem redundâncias (terminação O em raízes evidentemente substantivas; o uso de um sinal para o acusativo) vêm na verdade evidenciar intuição genial de Zamenhof, que parece ter até previsto o uso da língua em Informática, onde o uso de redundâncias é prática comum, por questões de segurança.

7. Conclusão

Para criar um idioma é preciso mais que o saber lingüístico: é indispensável a centelha do gênio. Em outras palavras, é o que diz o próprio Zamenhof: "incumbir uma comissão de criar uma língua seria tão insensato como encarregá-la de fazer um bom poema. Pois a criação de uma língua adequada em todos os sentidos, e capaz de viver, -coisa que a muitos parece algo fácil e divertido, - na verdade é extremamente difícil. Exige, por um lado, talento e inspiração especiais e, por outro, um ardente e inesgotável amor a essa causa".

8. Bibliografia:

Para a elaboração deste resumo, usei dados e conceitos colhidos em muitas fontes, entre elas as seguintes,que recomendo a quem deseje aprofundar-se no tema:

8.1.- Mattos, Geraldo.: "La deveno de Esperanto";Fonto, 1987.

8.2.- Holzhaus, Adolf.-"Doktoro kaj lingvo Esperanto";Fondumo Esperanto, 1969

8.3.- Privat, Edmond- "Historio de la lingvo Esperanto";Ferdinand Hirt/ Sohn, 1923

8.4.- Waringhien., Gaston--"Leteroj de Zamenhof(especialmente as cartas a Nikolai Borovko e a Michaux);SAT, 1948

8.5.- Waringhien, Gáston.- "1887 kaj la sekvo".Flandra Esperanto-Ligo, 1990.

8.6.- Waringhien, Gaston.-"Lingvo kaj vivo".J.Regulo, 1959

8.7.- Zamenhof, L.L-Unua libro de la lingvo Esperanto", Kelter,Varsovio, 1887

8.8.- Zamenhof, L.L.-"Fundamenta Krestomatio", UEA, 1992.

8.9.- Pessoa, Floriano "Ekrigardo al la Esperanta etimologio", Brazila Esperantisto, 1997.

 

(*)-Palestra feita no "Encontro dos mestres" da Associação Esperantista do Rio de Janeiro, por Floriano Pessoa, em 26.5.2001).