A IMPORTÂNCIA DO RIDÍCULO *

O trecho abaixo é parte do livro "Le Défi des Langues - Du gâchis au bon sense" (O Desafio das Línguas - da balbúrdia ao bom senso)*, do psicólogo suíço Claude Piron, ex-intérprete da ONU e OMS. Este excelente livro da editora L'Harmattan (Paris) infelizmente ainda não foi traduzido para o português.

Na maioria das reuniões [internacionais], o recurso da interpretação não dispensa uma boa parte dos participantes de falar numa língua estrangeira. Essa obrigação traz novos inconvenientes. É o caso daqueles que escolhem se exprimir na língua de Shakespeare. A fonética inglesa, não me canso de dizer, impõe graves problemas para a absoluta maioria das pessoas. Por exemplo, três quartos da população mundial não têm, em sua língua,os sons [] e [], correspondentes ao th inglês, que se pronunciam com a aplicação da língua contra os incisivos. Ora, é o som [] que permite a diferenciação de thick ("espesso"), de sick ("doente") e de tick("tique" ou "falar rispidamente, colocar alguém em seu devido lugar").Normalmente o contexto permite evitar mal-entendidos. Mas resta um outro fator bastante importante em toda comunicação humana, mesmo quando a mensagem é compreendida: o sentido do ridículo. Eu nunca irei me esquecer dos risos que provocou o delegado de um país - cujo nome vou omitir - que,tentando a duras penas se expressar num inglês capenga, fez uma pausa infeliz à procura da palavra correta após a frase My government sinks... Ou seja, não "Meu governo pensa" (thinks), como ele pretendia, mas "Meu governo afunda"(sinks), qual um navio no oceano. Dado que todo o mundo considerava mesmo o Estado em questão à beira do abismo, essa declaração mal colocada fez os participantes explodirem em gargalhadas. É bom ter humor suficiente para podermos rir uns dos outros. Mas o que é chocante neste incidente é o seu lado injusto. A vítima, ao invés de ser ajudada, é colocada em situação inferior justamente por ser vítima.Vítima do quê? Da injustiça dos sistemas de comunicação atualmente em vigor no mundo. Na verdade, ficam poupados desse risco do ridículo os Anglo-Saxões e outros povos cujas línguas gozam de status oficial.

Os falantes de francês têm também essa oportunidade de saborear a inferioridade de seus colegas. Um dia, quando eu ainda trabalhava na ONU, todas as delegações de língua francesa se divertiram bastante ao ouvir um representante criticar, repetindo constantemente essa expressão, "la politique du Cuba" ("a política do Cuba"). Se tívessemos um pouco mais de caridade e compreensão humana, nós estaríamos indignados com um sistema que prega essas peças mesmo nas pessoas mais competentes. No caso, o francês do orador era notável sob todos os aspectos. Eu lhe daria nota 9,8. O artigo na frente do nome da ilha era seu único erro. Seria perfeitamente perdoável, já que se diz a política do Japão, do Canadá, do Togo... Um falante de francês jamais erraria esse artigo, como os falantes de inglês no caso do th. Pode ser igualitário esse sistema que não divide igualmente entre os povos o risco do ridículo? Em um debate político cair no ridículo significa defender suas idéias em desvantagem. Será que é para conservar essa superioridade,já de saída, que as grandes potências sempre manipulam e evitam que enfim se abra o dossiê da comunicação lingüística no mundo?

Fonte:

* pág. 114. Traduzido pelo KCE (Kultura Centro de Esperanto) Campinas -SP( http://pagina.de/kce), responsável também pelo CER-Curso de Esperanto pela Rede.

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Nota: O artigo de hoje nos foi enviado, à guisa de colaboração, pelo dinâmico companheiro José Pacheco, de Porto Alegre-RS, moderador de interessantíssima lista de debates pela Internet (http://www.esperanto.org.br/eki).

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