INTOLERÂNCIA LINGÜÍSTICA

(*)Fernando J G Marinho

Jornais de todo o mundo noticiaram e ,certamente , comentarão durante algum tempo as repercussões do discurso pronunciado pelo presidente da Alemanha, Johannes Rau, no dia 16.02.2000, perante o Parlamento israelense . Pedidos de perdão pelo Holocausto não são , absolutamente, atos corriqueiros. O primeiro presidente alemão a discursar no Knesset ( parlamento de Israel) prestou, dentre outras, as seguintes declarações: "- Na presença do povo de Israel, inclino-me com humildade diante daqueles que foram assassinados, que não têm túmulo, e peço perdão. Peço perdão pelo que os alemães fizeram, por minha geração, por meus filhos e os filhos de meus filhos, que eu gostaria de ver, no futuro, tendo boas relações com os filhos de Israel ". Em outro trecho, o presidente Rau, fazendo alusão à situação atual da extrema-direita na Áustria, afirma que "a Europa não permitirá que a xenofobia e o racismo se instalem de novo". Fotos da solenidade comprovam o clima de emoção que reinou durante o discurso presidencial ,o qual chegou a provocar lágrimas em várias autoridades presentes.

Até aqui, apreciamos o lado belo da notícia : a iniciativa de um estadista, que corajosa e humildemente se curva diante de ofendidos para pedir perdão por atos praticados, em um passado relativamente distante, por alguns de seus compatriotas. Há que se destacar ainda o interesse revelado pelo presidente no estreitamento dos laços de amizade entre Alemanha e Israel.

O lado triste das notícias que circulam, fica por conta da intolerância . Alguns parlamentares deixaram de comparecer ao Knesset, em protesto pela presença do presidente Rau naquele recinto. Um deputado de partido conservador, filho de sobreviventes do Holocausto deixou o Parlamento quando Johannes Rau iniciava o seu discurso. Houve quem dissesse que escutar um discurso em alemão lhe provocara forte indisposição.

A polêmica causada no país, diante da permissão que foi dada ao presidente da Alemanha para discursar em seu próprio idioma no Knesset , deixa bem clara a presença do problema da intolerância lingüística . A respeito dessa permissão, Dov Shilans, ex-presidente do Parlamento, comentou: "- É uma profanação da memória do Holocausto!".

Se o nosso querido judeu-polonês ,Dr. Ludoviko Lazaro Zamenhof , falecido em 1917, ainda estivesse entre nós, acompanhando os noticiários , certamente exclamaria usando o linguajar da nossa época: "- Mi jam vidis tiun filmon! ( Eu já vi esse filme!)". A intolerância , provocadora de constantes conflitos entre falantes do alemão, do polonês, do russo e do iídishe na pequena Bialistoque, cidade em que vivia, foi justamente uma das preocupações que se infiltraram na cabecinha do então ginasiano Ludoviko e que provocaram a posterior elaboração da língua neutra internacional ESPERANTO.

" Neutralidade " é apenas uma das vantajosas características deste idioma. Só a existência desta característica já seria responsável pela eliminação de um razoável número de problemas diplomáticos que se repetem com freqüência.

Se o prezado leitor tiver interesse em saber um pouco mais sobre a língua internacional e sobre o seu idealizador, lembramos que a obra "Doutor Esperanto", de Walter Francini, foi recomendada pela Equipe Técnica do Livro e Material Didático da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo( Diário Oficial de 14 de setembro de 1973) para divulgação nos estabelecimentos ,considerados à época, de ensino secundário e normal. Informações mais completas poderão ser obtidas através de contato com a Liga Brasileira de Esperanto (http://www.esperanto.org.br).

(*)marinho@npoint.com.br

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