LEMBRANÇAS INESQUECÍVEIS DE UM CONGRESSO

 

Fernando J.G.Marinho

 

Amigos, para termos uma idéia um pouco mais precisa do que é o movimento esperantista , nada melhor do que participarmos de um Congresso de Esperanto. E, de preferência, de um congresso de âmbito mundial , como o que acabou de ser realizado em Berlim, entre 31 de julho e 7 de agosto de 1999. Na impossibilidade de estarmos presentes a um desses eventos internacionais, que se repetem a cada ano, em países diferentes, há ainda a oportunidade de examinarmos de perto o desenrolar de um congresso nacional, cuja sede também varia de um ano para outro. Até julho próximo estaremos insistentemente chamando a atenção dos nossos leitores para o 36° Congresso Brasileiro de Esperanto que será realizado aquí em Petrópolis. Enquanto nos preparamos para essa grande festa, que tal lermos o depoimento de um companheiro esperantista, que acaba de regressar de Berlim? Trata-se de um dos nossos... Não, não há necessidade de acrescentar muita coisa. Pela leitura da carta que o companheiro Adonis enviou, pela Internet, no dia 20.8.99, aos participantes da lista de debates "Eki" (http://www.esperanto.org.br/eki), vocês perceberão o quanto ele deve ser querido por todos nós. Além do mais, vocês ainda ouvirão falar muitas vezes do Dr. Adonis Saliba , engenheiro metalúrgico, criador de um excelente curso de esperanto para Windows 95 ou superior (http://www.astrale.com/esperanto/vinkepo.exe), idealizador de duas listas de debates pela Internet,voltadas para a prática e divulgação da língua neutra internacional etc. Mas, vamos ao que interessa.Com a palavra o amigo Adonis:

 

 

"Olá Pessoal,

 

Estou aqui de novo. Cheguei na terça-feira e já comecei trabalhando e, com os mais de 1000 e-mails que recebi, não tive condições de escrever para vocês até agora.

O congresso em Berlim foi muito bom, realmente Berlim tinha um calorzinho legal, que lembrava muito bem o Brasil. De bermuda e mochila nas costas eu ia todos os dias do meu hotel de estudantes Vier Jahreseit (quatro estações ) para o " kongresejo"(=local do congresso). O hotel ficou repleto de esperantistas de todo mundo: de brasileiro só eu, mas havia vários hóspedes da França, da Nigéria, da Tanzânia, da Polônia, da Rep. Tcheca, da própria Alemanha, da Argentina, da Coréia.... não me lembro mais. Já no primeiro dia o Sr. Ibanhez da Argentina tinha que comprar tinta à óleo para pinturas para a sua filha e em bando saímos pelas ruas de Berlim, eu, ele, o Constantine, um tanzaniano que falava muito bem alemão e mais uma penca de línguas e o Emmanuel,o nigeriano, que me disse que eu tinha sido a primeira pessoa na vida dele com quem ele havia falado esperanto. Legal, mas o diferente foi ver que o senhor Ibanhez só falava esperanto com todo mundo na rua. O pessoal achava que ele era maluco e a gente morria de rir das situações. Como todo bom argentino começa a gritar quando não é compreendido, ele começava a gritar em esperanto com as mulheres da loja que não o compreendiam... assim começou o nosso congresso.

2700 pessoas na abertura de domingo pela manhã. É absolutamente emocionante ver centenas de línguas silenciadas para fazer o esperanto soar mais alto. O neto de Zamenhof lembrou em um discurso emocionado que, naquela cidade, um dia o esperanto tinha sido calado pelas armas e expulso para os guetos e proibido sob o bordão de Hitler, mas que pela primeira vez nos 84 congressos da Universala Esperanto Asocio, Berlim abria suas portas para o esperanto. O grande espetáculo de uso do idioma internacional apenas estava no inicio. O ICC, o prédio onde ocorreu o congresso, mais parecendo uma nave espacial e nos dava a impressão futurista de grandes janelas em oval. Lançamentos de livros, tchecos chegando de bicicleta, coreanos com trajes típicos, sons de músicas de brasileiros nos corredores, africanos em suas roupas xadrez de cores gritantes.... Alguns com ternos, outros apenas na rotina de seus trabalhos e nós congressistas irmanados em um mesmo idioma e todos correndo contra o tempo para ouvir as 6 palestras simultâneas que ocorriam na labuta do dia a dia. Linda sensação de nosso pais virtual "Esperantio", país que surge quando os seus habitantes de todas as partes da terra chegam a ele falando o esperanto. Desejaria que a humanidade pudesse sentir um pouquinho o prazer que temos ao viver nesta atmosfera. A única sensação que tenho é que estou no futuro almejado com a compreensão entre os homens restabelecida e não no presente da incompreensão dos idiomas. Saiamos sempre em bandos pelas ruas de Berlim, sempre tinha um que podia nos ajudar nos menus e nas compras dos infindáveis Donner Kebabs de Berlim, sanduíche turco que o alemão adotou. Sede e muita cerveja bávara. 300ml ou 500ml e meio quentinha e bem alcolizante. Estou ainda em estado de recuperação alcóolica. Minha barriga revela o fato.

O Teatro abria suas portas para as emoções do dia a dia da arte esperantista. As "troupes" da Croácia, falando em um esperanto impecável nos deleitava com o seu teatro moderno, enquanto o Pequeno Príncipe era revivido em uma encenação maravilhosa de um outro grupo (não me lembro agora, quando a minha mala voltar de seu passeio suplementar por Madri, prometo trazer algumas informações a mais depois que ela aterrizar). A noite da Alemanha foi muito interessante, mas realmente o mundo esperantista trouxe para a noite internacional a sua pujança. O Brasil esteve bem representado por lá com um grupo de brasilienses que depois foram para a Polônia.

O congresso não parava ai: os ecologistas, os espíritas esperantistas, os rádio-amadores, os membros da liga gay esperantista (LSG), os católicos, os ferroviários esperantistas, os cientistas, os matemáticos... e uma infinidade de outras áreas que usam o esperanto estavam se reunindo para discutir seus temas em nossa língua. Realmente, português é uma língua praticamente inexistente neste pedaço do mundo. Para mim somente o esperanto foi útil mesmo, pois o Berlinense tem uma relação estranhíssima com o inglês, ouvem a pergunta e respondem em alemão... hahaha... legal. Pelo menos estava de férias e não tinha nada muito sério para falar, mas queria apenas ser gentil muitas vezes. Infelizmente, eles não são tão amistosos assim, deixa para lá, o meu povo esperantista estava ali para que conhecêssemos e para fazer amizade. E isto realmente ocorreu.

Acho que a mensagem está meio grande agora, tenho que parar, mas só mais umas coisinhas interessantes. No dia de folga (quarta-feira) fizemos um passeio a parte por Berlim. Berlim está sendo reconstruída, realmente é a capital da Europa mais bonita e mais moderna. Alexander Platz e Potsdamer Plaz e o portal de Bradenburg, pontos marcados pela divisão da guerra fria com o famoso muro são hoje um grande monumento da modernidade, é onde o povo alemão mostra a sua riqueza. Fotos para lá e para cá... ainda minhas fotos estão em Madri, dentro da minha mala peregrina que não quer chegar ao Brasil. Mas um barato mesmo são os museus com a Nefertiti de Tutancamon no museu egípcio e o museu Pergamon que levou as ruínas da Cidade de Pérgamo na Grécia para dentro de Berlim e também grandes murais da Babilônia antiga. Tudo está lá, bem roubadinho dos respectivos países. Mas eles conservam bem. E tudo bem comentado por belas guias esperantistas.

Chega... Ah... bem, acho que trouxe um gostinho da coisa para vocês. Mas não percam o próximo expresso da "Esperantio" a nível global ... ano que vem em Tel-Aviv em Israel, Zagreb na Croácia em 2001 e Fortaleza no Brasil em 2002. Legal né mesmo?

Um abração para todos vocês

Adonis "

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