BONA ESPERO

 

Fernando J G Marinho

 

A revista VEJA desta semana ( n°31, de 4.8.99) publicou curiosa matéria sobre Alto Paraíso, "pequena cidade da Chapada dos Veadeiros, 230 quilômetros ao norte de Brasília". A escolha do título ( O reino dos esotéricos) bem como do subtítulo (Místicos de Alto Paraíso vêem disco voador, conversam com ET e esperam o fim do mundo ) já nos havia dado uma indicação de como o tema seria abordado. O que não esperávamos era a inclusão da seguinte assertiva, para melhor caracterizar a cidade em questão: "É sede de uma das últimas comunidades de ensino do esperanto no mundo e tem mais terapeutas alternativos do que doutores formados em medicina". A surpresa não está na dificuldade em relacionar a comunidade esperantista com a desproporção entre terapeutas alternativos e doutores em medicina. A surpresa está no grau de desinformação do autor da matéria, no que diz respeito ao movimento esperantista.

Hoje, graças à Internet, torna-se facílimo buscar informações precisas sobre os mais variados e complexos temas. Uma simples pesquisa usando como objeto de procura a palavra "esperanto" é o suficiente para convencer o mais resistente dos incrédulos que a língua neutra internacional esperanto é uma vigorosa realidade.

No próximo ano, entre 12 e 16 de julho, estaremos realizando aqui em Petrópolis o 36° Congresso Brasileiro de Esperanto. Nada mais justo, portanto, que queiramos manter os habitantes desta cidade bem informados sobre o movimento esperantista, seus objetivos, suas dificuldades, suas vitórias. Para isto, contamos com este espaço, gentilmente cedido pelo Diário de Petrópolis. Aliás, se o prezado leitor tiver interesse em entrar em contato conosco para obter maiores informações sobre o esperanto, apresentar críticas ,sugestões, ou até mesmo aderir à nossa causa, sugerimos que o faça por intermédio da redação do Diário.

Mas, voltando ao assunto publicado na VEJA: Que tal sabermos um pouquinho mais a respeito da citada comunidade esperantista? Trata-se da fazenda-escola Bona Espero .

Antes porém, um esclarecimento: Os textos que se seguem foram extraídos do livro "Não só idealistas, mas realizadores"( Coletânea de depoimentos de esperantistas), Editora Liney, 1995.Esta obra foi criada justamente pela necessidade de dispormos de uma razoável quantidade de material capaz de impressionar favoravelmente os formadores da opinião pública. Dentre os depoentes que contribuíram para a realização do livro , encontra-se o casal Grattapaglia, ele italiano, ela alemã. Pena que tenhamos de cortar a maior parte dos depoimentos, por exclusiva falta de espaço.

Com a palavra Giuseppe: ".... E a tal vaga era um lugar chamado "Bona Espero"( Boa Esperança) onde Giuseppe e Ursula encontraram a materialização do lema "Esperanto: Língua da Paz e Solidariedade". Isso soa muito bonito quando, ao redor de uma farta mesa, filosofamos a respeito dos grandes problemas da humanidade contemporânea: doenças, fome, analfabetismo, miséria em geral. Mas tais problemas estão longe demais do cotidiano, daqueles que principalmente , vivem na abundância do consumismo. Em Bona Espero, o cotidiano fazia parte de tais problemas e um grupo de esperantistas brasileiros havia fundado em 1957 aquela obra assistencial no meio do cerrado, visando "um trabalho social educativo por um mundo melhor e uma humanidade mais feliz". ..........................................................................

Desde sua fundação, Bona Espero sempre manteve escola de alfabetização, onde os filhos de famílias paupérrimas e abandonadas da sociedade encontravam um lar e um exemplo de existência digna. Professores de Bona Espero também deram um impulso decisivo para a criação do primeiro ginásio em Alto Paraíso.

Como se inseriram Giuseppe e Ursula neste trabalho?

Com o entusiasmo daqueles que, no pragmatismo atávico de povos sofridos, aprenderam a nunca esmorecer na resignação do "não dá", mas lutaram com persistência para o "tem que dar".

Foi graças àquela atitude que eles se tornaram uma espécie de ponte entre os esperantistas europeus e os brasileiros. Voltando para a Europa, em ocasiões de manifestações esperantistas, davam testemunho deste maravilhoso país, Brasil, que não é somente de carnaval e futebol, como muitos pensam. Assim se criaram as condições favoráveis para realizar em Brasília o 66° Congresso Mundial de Esperanto. Em 1981.

Na verdade, foi muita ambição convidar 1750 delegados esperantistas de 49 países para aquele que foi definido como o maior congresso de esperanto fora da Europa. Mas. "valeu a pena", como dizem os brasileiros! "

E agora?

Depois de 21 anos em Bona Espero, Giuseppe e Ursula estão colhendo os frutos de uma árvore - que nem jabuticabeira - demora muito para frutificar. Tais frutos são jovens bem inseridos na vida, responsáveis e conscientes; são meninas que vieram à Bona Espero para serem alimentadas e alfabetizadas e que agora ensinam aos pequenos; são ex-alunos casados, cujos filhos nunca serão abandonados, porque os pais aprenderam em Bona Espero que o futuro de uma nação se constrói cuidando das novas gerações".

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Com a palavra Ursula: "..........O paraíso de servir

Em uma das nossas viagens pelo mundo, sempre usando a rede internacional dos esperantistas, encontramos "nosso lugar". Em Goiás, na Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso. Aí lembrei que tínhamos nos encontrado pela primeira vez em Gran Paradiso, na Itália. É difícil reconhecer "os sinais"...

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Diante dos nossos olhos estava lá o lugar: em um parque nacional de conservação ecológica, uma fazenda-escola esperantista, dando assistência e alfabetização a crianças carentes da zona rural; agricultura alternativa; energia solar e eólica; água nascente; rios; montes; servir o próximo em regime de voluntariado; comunidade de esperantistas dos países do mundo. Eles, os esperantistas brasileiros, estavam nos esperando.

Meu mundo em Berlim era de muros, de medo, morte, fome, frio. Eu queria mudar aquilo. Encontrei a língua da solidariedade. Mas parece que não era o bastante. Havia mais: O esperantismo também a serviço dos mais necessitados do nosso planeta. Na Itália estávamos vivendo em uma sociedade de consumo, de egoismo coletivo e sentíamos instintivamente que havia algo mais. De repente, eis aí! A harmonia, a realidade dos meus três desejos: Esperanto- serviço- qualidade de vida........................."

 

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