O ALFABETO FONÉTICO COREANO

 

Fernando J. G. Marinho

 

 

Em 25 de outubro de 1998, o Prof. Sérgio Nogueira Duarte lançou algumas perguntas aos seus leitores da coluna Língua Viva, semanalmente publicada no Jornal do Brasil. No dia imediato , na qualidade de assíduo leitor da referida coluna, enviei minha contribuição , a qual não chegou a ser comentada. Como se trata de um assunto que merece a reflexão de todos os que se preocupam com o rendimento do estudo da nossa língua, julgo oportuna a transcrição abaixo:

Prezado Prof. Sérgio Nogueira Duarte,

 

Há poucos dias escrevi um texto que começava com esta afirmação de Mark Twain: "O homem com uma nova idéia é um excêntrico, até que a idéia seja um sucesso". Imagino que o imperador Sejong, que reinou entre 1418 e 1450, na distante Coréia, tenha sido considerado pelos seus contemporâneos um desses excêntricos, pois foi ele que determinou a um grupo de intelectuais a criação do alfabeto fonético, que veio a chamar-se "hangul".

Fiquei sabendo, através da leitura de uma revista editada na Coréia - não em coreano, inglês, francês ou espanhol, mas em esperanto, idioma de ortografia essencialmente fonética, que o hangul atualmente consiste em 10 vogais e 14 consoantes, cujas combinações geram um grande número de unidades silábicas. O alto índice de alfabetização do povo coreano é, em grande parte, atribuído à facilidade com que se aprende o alfabeto hangul. Ainda segundo a revista ( La espero el Koreio, n° 120, maio-junho 1994), a tradicional valorização do ensino, associada à rápida modernização do sistema educacional fez com que a Coréia atingisse, em âmbito mundial, um dos mais elevados índices relativos a capacitação de leitura e escrita, por parte de seus habitantes.

Agora, eis a minha opinião sobre o que foi perguntado, na sua coluna do JB, Língua Viva, do último domingo, 25.10.98:

1*) Será que o brasileiro escreve mal por culpa das atuais regras de ortografia?

R. Nenhum fator isolado poderia ser responsabilizado pela péssima forma como o brasileiro escreve. Mas, não podemos negar que a simplificação de qualquer tarefa que deva ser aprendida, só poderá facilitar o ato de aprender.

2*) Será que a ortografia "fonética" realmente facilitaria o ensino da língua portuguesa?

R. Facilitar o problema não significa resolver o problema. A ortografia fonética contribuiria com uma parcela, na solução do problema.

3*) Será que o alto índice de analfabetismo é conseqüência das regras gramaticais da língua portuguesa?

R. Não. Mas, se todos os outros fatores que contribuem para o alto índice de analfabetismo fossem eliminados, ainda assim valeria a pena pensar na possibilidade de simplificações.

4*) Se a regra básica é "escrever como se fala", como ficariam as vogais?

R. Não conheço os detalhes da Proposta de Ortografia Fonêmica elaborado para a língua portuguesa. No entanto, suponho que o critério seja o mesmo que Zamenhof estabeleceu para o esperanto : para cada letra haverá um único som; logo, cada vogal terá também um único som.

5*) Um desafio especial para os defensores da Ortografia Fonética: o que seria certo?:

a) pepino; b) pepinu; c) pipino; d) pipinu; e) pépino

R. Repito desconhecer os detalhes da citada Proposta. Em conseqüência, sinto-me despreparado para opinar com convicção. No entanto, acredito que as cinco palavras acima devam ser lidas de acordo com os sons atribuídos às letras. Se fossemos submetidos a um ditado, para escrevermos as palavras pepino, pepinu, pipino, pipinu e pépino, desde que bem pronunciadas, dificilmente cometeríamos enganos. Agora , se me perguntassem, qual delas representa o alimento que costumamos usar na salada, todos deveriam pronunciar com clareza: pê- pi-nô . Não poderíamos aceitar variações de pronúncia, como não aceitamos variações de escrita. O meu depoimento final é que no meio esperantista cultivamos o hábito de pronunciar corretamente as palavras, observando a diferença entre uma letra "u" e uma letra "o "; entre a letra "l "e a letra "u"; entre uma letra "e" e um "i", para citar apenas alguns exemplos. O que é importante ressaltar é que nordestinos, gaúchos, alemães. chineses, e todos os demais falantes deste planetinha se fazem entender perfeitamente, quando se reúnem em congressos ou simples encontros. É só comparecer a um dos nossos congressos para conferir.

Maiores informações sobre o esperanto poderão ser obtidas via Internet. Aqui vai apenas um dos endereços que merece a sua atenção : Liga Brasileira de Esperanto <http://www.esperanto.org.br>

Atenciosamente

Fernando José Galvão Marinho

marinho@npoint.com.br

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