CASTRO ALVES INTERNACIONALMENTE

Fernando J G Marinho

 

Gostaria de dedicar o artigo de hoje à duas pessoas muito especiais: Professora Denise Ribeiro, do Colégio Estadual Rui Barbosa, uma das incentivadoras do Projeto Sementeira Esperanto (http://www.npoint.com.br/sementeira),em andamento naquele Colégio e ao amigo Leopoldo Knoedt, brasileiro residente em Salvador,que de longa data vem maravilhando a comunidade esperantista com as suas excelentes traduções.

Este artigo , a rigor, consiste apenas na transcrição de um trecho de carta , publicado pelo BRAZILA ESPERANTISTO, órgão oficial da Liga Brasileira de Esperanto, há mais de trinta e cinco anos. Trata-se de uma correspondência enviada em fevereiro de 1963 pelo jornalista K.M.Gusev,de Moscou, para o nosso amigo Knoedt. A carta faz parte de uma coleção de críticas , publicadas por importantes periódicos esperantistas do mundo inteiro e se refere à edição ,pela Universidade da Bahia, sob os auspícios do Ministério da Educação, das POESIAS ESCOLHIDAS de Castro Alves, em esperanto, numa versão de Leopoldo Knoedt.

 

Eis o que diz o co-idealista Gusev:

 

"Muitas vezes pode parecer a um escritor que seus penosos e contínuos esforços se perdem inutilmente. Contudo creia-me: é uma impressão falsa, poderá iludir por um momento mas nunca representar a realidade.

Direi apenas o que significou para mim a sua primeira obra " Poesias Escolhidas " de Castro Alves. Quando recebi esse belíssimo livro de uma amiga do Rio, não pude, durante alguns dias, tratar de outra coisa: declamei os versos do genial brasileiro para meus amigos esperantistas, transmiti a meus colegas jornalistas o conteúdo poético de maravilhas como "O Vidente", e, por último, decidi ler, a todo custo, as poesias completas de Castro Alves, no original português, e para isso empreendi um enérgico ataque à gramática portuguesa.

Posso dizer que o senhor me ajudou a fazer nova "descoberta " no continente americano: até agora eu conhecia bem, declamava de cor em inglês e espanhol, e traduzia para o russo e o esperanto os poemas de dois gigantes daí: o americano Walt Whitman e o cubano José Marti. Agora este maravilhoso poeta-menino do Brasil está situado, em meu campo espiritual, no mesmo plano com os dois primeiros; em nada fica a dever-lhes e, juntamente com eles luta pelo futuro da humanidade.

Li o seu livro pela primeira vez em março de 1961. E, como se enriqueceu o meu mundo interior depois disso! Travei conhecimento com a língua portuguesa, sei de cor o original de muitas das "Poesias Completas" de Castro Alves, li completamente o belíssimo livro de Jorge Amado- "ABC de Castro Alves". Esses dois livros em português ficam, em minha estante, ao lado das poesias traduzidas pelo senhor, e que são a verdadeira causa de todos esses fatos.

 

Traduzi para o russo "O Vidente", "A cruz na estrada", "Bandido Negro", "O sol e o povo", "Confidência" e muitos outros poemas, que sem falta publicarei, quando terminar o trabalho de tradução. Também divulguei as obras de seu maior poeta entre meus conterrâneos e correspondentes esperantistas de vários países. Nas minhas preleções sobre poesia na Língua Internacional, a referência a Leopoldo Knoedt, o tradutor de Castro Alves, e a declamação de suas traduções sempre despertam calorosos aplausos. Mas nada posso dizer do tradutor, além de meus contatos com sua obra notável: nada conheço de sua pessoa , e até o endereço, para remeter esta carta de agradecimento, eu só vim a conhecer hoje.

Eis o que causou um exemplar de seu livro, um exemplar tomado ao acaso. Entretanto, bem pode imaginar que muitos outros exemplares continuam incessantemente esse trabalho tão útil, mas que, infelizmente, é invisível para o senhor. A qualidade de sua tradução é tal que o senhor pode ficar livre de dúvidas e nunca levantar a questão: "To be ou not to be"... O livro tem agora vida própria; e se o senhor pudesse conhecê-la em detalhes, ficaria maravilhado.

Em minha vida o conhecimento das obras de Castro Alves causou a mais forte impressão, desde que conheci o "Romancero Gitano" de Frederico Garcia Lorca, em 1936, quando meu primeiro correspondente esperantista em Madrid me remeteu esse livro. E como sou jornalista e lido com muitas pessoas de toda espécie, essa agradável tomada de contato com as obras do poeta brasileiro, por parte de trabalhadores, camponeses, cientistas, engenheiros e outros compatriotas meus , continuam sempre."

 

Para saber um pouco mais sobre outros trabalhos de Leopoldo Knoedt, dentre os quais destacamos a versão de OS LUZIADAS para o esperanto, sugerimos a leitura da coletânea de depoimentos "Não só idealistas, mas realizadores", Editora Liney, 1995 , que pode ser encomendada através de várias associações esperantistas (http://www.esperanto.org.br).

 

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